Isso tudo foi porque quando estive na pátria agora pela ultima vez (a quem não sabe emigrei para a Alemanha), estava a curtir um finex no Adamastor quando dei com uma cara conhecida atrapalhada com um salto partido... Vociferava, guinchava, espumava de raiva, soltava toda o tipo de impropérios contra os ventos de Almada que apenas abafavam a sua cólera.
Por assim ter sido criado, aproximei-me da criatura e perguntei-lhe se estava tudo bem?
"Pô, quau tudo bêim, essa porra di chão mau prégado fudeu meu sapato!!"
-Cândidamente, com o meu natural sorriso de charme lusitano, respondi:
"Isso é a calçada Portuguesa, mundialmente afamada por tornar impraticável o uso de sapato de salto"
"S'é Portuguesa num sei, só sei qui calçada num pôdi sê naum. Tó aí, aquí ocê só tá vendo Brasileira descalça mêsmo"
Então, por ela relembrado quão difícil pode ser para um brasileiro compreender o nosso sotaque fechado, recorri ao meu sotaque novela, que a sempre recorro, pela natural simpatia hospitaleira lusitana que orgulhosamente ostento e de forma a que pudesse ser compreendido por alguém que vem de uma cultura audiovisual de "doblagem", sobrepondo com autoritário nacionalismo cultural a riqueza e beleza natural da língua original.
"Pô, ocê é a Maitê! Cara, ocê era a diva da minha infân... hum, juventudji... Isto é, tardia juventudji. (Admito que fiquei meio engasgado quando quase, quase a relembrava de quão velha ela realmente é.)"
"Pô Maitê, não entra numa fria, gata! Ocê só tem dji fazê uma coisa muito simplisss"
Então pedi-lhe o outro sapato, peguei no respectivo salto, parti-o e disse:
"Prontxinho, Maitê. Tá vendú, xuxu beleza, já podji caminhá ôtra vêsss!"
A mulher ficou assombrada de espanto. Olhou-me como se fosse o Messias descido à terra, bênção do Cristo plagiado do morro da Trafaria.
"Pô cara, ocê salvô meu djia! Vem cá, vô-txi convidá pôum chopinho e ocê nem pensi em dizê naum, hên?!"
"Pô, um chopinho com Maitê, isso é um sonho de decada, mejmo.. Hum, qui txenho desd'o tempo em txi via contracenando na Sinhã Môça"
E pronto, lá fomos para aquele terraço maravilhoso mesmo em frente, e enquanto ela emborcava chopinhos uns atrás dos outros, eu, que sempre preferi finex's, lá dava à língua, contando-lhe de como tinha emigrado por Amor e tinha encontrado na minha Steffi Alemã toda a paixão tranquila que nunca tinha conseguido encontrar nas passadas desventuras.
Duas horas depois, a mulher estava uma lastima. Com aquela avidez própria da crise da meia idade, de disfarce continuo da pesada realidade dos seus 50 anos, ela havia bebido como uma adolescente em puberdade, estando claramente imprópria para consumo, quanto mais para conseguir chegar ao hotel sem partir, desta vez não um salto, mas uma perna ou até pior o nariz... nas pedras da calçada Portuguesa, com certeza.
Quando finalmente saímos da esplanada ela diz-me
"Óh Jô, acho qui estô um pouco desorientada aí com a cidadji"
Sabendo de antemão que a desorientação era outra, enrolando o meu bigode pirata perguntei-lhe:
"Ocê qué qu'eu txi levi no hoteu?"
Então, num movimento continuo, próprio de um gran finale de uma dança de tango, quase caindo nos meus braços, num sorriso infinito diz:
"sssssssssssiiiiiiimmmmmmmmm!" Então levei.
No hotel do Bairro Alto, ali tão pertinho para tão grande desorientação, a Brasileira calçada de sapato agora raso, arrasava assim de vez o desafio da outra calçada, a Portuguesa. Maitê pegava no meu braço como caçador que leva com propriedade a perdiz recém caçada.
Quando chegámos à entrada do hotel, Maitê, com a sua valquírica confiança diz-me num bafo quente de cerveja amarga:
"Mi leva na porta?"
-como típico macho luso, pausei um pouco na minha confusão - "Tem razãum Maité, isso aí é o portão. Qual é seu quarto?"
"Foi o washintôn, anotei todos até hoji, tau quau Don Giovanni. Ha, desculpa, o numero ocê quer dizê. É o 309"
-E levei. Uma vez cavalheiro, cavalheiro até ao fim. Afinal a admiração que tinha pela musa da minha infancia, merecia a minha retribuição pela gloria dos meus passados sonhos molhados. No elevador, enorme, estava mais apertado que no metro em hora de ponta. Sorri, como quem não quer a coisa, num olimpico esforço para não toar com vermelho do seu vestido. Pim! Terceiro andar. O olhar de Maitê consumia-me como faminto olhando vitrina de restaurante de peixe. Os últimos 20 metros até ao 309 pareceram maiores e mais sacrificados que o caminho de Compostela... desde Istambul. Chegados enfim, Maitê abre a porta e sussurra como Marilyn em dia de aniversário de presidente:
"Vem?"
Então, sem poder mais conter o copo cheio, entornei:
"Pô Maitê, eu txí contei. Meu coraçãum só existxí pá Steffi. Sofri muito para conseguí o amor. Não vale a pena sexo de uma noite com Deusa, para descer no inferno pó resto da vida."
"Quê? Deu moleza agora? Tá gozando na minha cara? Vai aquecê para depois largar numa fria?"
"Nâum Maitê, tô longe desse fêtixí de dominaçâo machista, vou lá gózá na sua cara! Meu lance é carinho mêmo, gôzo colectivo e simultaneo. O negócio é outro. O amor qui ocê qué, não tjem como traí. Mi perdoa, mas djei até ondji podjia dar"
"Viado! Frôxo! Só podji sê as duas coisas. E ainda por cima sádico! Só podjia sê português!"
"Não Maitê, Foi ocê que pensô que todo o homem é cara dji pau, cafageste como o Brasileiro. Decencia não tem nacionalidade. Só o preconceito mêmo!"
Fechou a porta com estrondo na minha cara. Ainda deu para a ouvir dizer:
"Esperemos qui essá mérda dji terra tenha ao menos garôto dji programa na internetxi. Posso até perdê o orgulho, mas graças a Deus ainda tênho meu portátxiu!"
Como diria o meu pai: "Com um feitio assim só pode ser mal fodida"
por
JC.OM